Renata: mulher, mãe de família, dona de casa, desempregada e com o marido preso. Como sobreviver?

Essa é a história de Renata, uma brasileira como várias outras, que luta em meio a tantas dificuldades impostas pela vida.

De quinze em quinze dias Renata comparece ao Fórum de sua cidade para saber notícias sobre o processo criminal do seu marido, que está preso.

Nessas idas e vindas ao Fórum, Renata desabafa sua história com aqueles que estão dispostos a ouvi-la: mãe de quatro filhos, marido preso, desempregada, vivendo de doações, ajuda dos vizinhos e pequenos “bicos” pra arranjar uns trocados.

Eu, como sou “pra frente”, parei para trocar umas palavras com aquela mulher e ouvir o que ela tinha para falar.

Seu marido, Marcos, está sendo acusado de roubar um aparelho celular e foi preso dois meses antes do nascimento da sua filha mais nova, quando Renata já estava bem barriguda.

Renata e Marcos têm 04 (quatro) filhos, contando com a caçula que nasceu enquanto Marcos estava preso.

Segundo ela, quando seu marido foi preso, ambos estavam desempregados e a situação financeira não estava nada boa. Tinham três filhos, além daquele que ela carregava na barriga e tudo o que eles possuíam para comer naquele dia era um ovo de galinha e um bife de fígado (“que nem tava bom para comer, mas como era o que tinha…”) – para dividir entre 02 (dois) adultos (uma grávida) e 03 (três crianças).

Renata sabia que a dificuldade financeira que a família passava não era motivo para a prática do crime e que seu marido estava errado, mas a dificuldade que ela estava passando para cuidar dos filhos (agora já 04, pois nasceu a mais nova) era tão grande que ela não sabia mais o que fazer, por isso vinha ao Fórum “implorar” por seu marido.

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A conversa (quase um monólogo, pois praticamente só ela falava) durou mais alguns minutos, tempo suficiente para que eu estivesse por dentro de tudo o que se passava, dos vizinhos que a ajudavam, do pastor que sempre lhe dá uma assistência (material e espiritual) e muito mais.

No final, ela vira pra mim e fala: “Eu não tenho renda. Com quatro filhos fica difícil sair para fazer qualquer coisa. Com meu marido preso, não entra um real dentro de casa. Sabe com o que eu vivo?! Com o Bolsa Família, dinheiro que me ajuda a dar de comer para os meus filhos, e com a caridade dos vizinhos e da igreja”.

Sendo favorável ou contra aos programas sociais do Governo, uma coisa é certa: ouvir uma história dessa dificulta muito afirmar que esse assistencialismo é desnecessário e que é apenas uma medida populista para ganhar votos.

Se não fosse essa “ajuda” do Governo, como essa mulher (e seus filhos) sobreviveria? A quem ela recorreria? Os vizinhos e a igreja conseguiriam sustentá-la por quanto tempo? Seria digno ela ficar “pedindo ajuda para os outros”?

E mais, quantas outras Renatas estão espalhadas por esse brasilzão?

Ressalto que nesse caso não é cabível o auxílio reclusão, pois Marcos, antes de ser preso, estava desempregado, logo, não estava com a CTPS assinada e não contribuía para o INSS.¹

Não tenho o objetivo de julgar a vida dessas pessoas, tampouco apontar para eventuais erros ou acertos.

É inegável que Marcos, ao cometer o crime pouco tempo antes do nascimento da sua filha, sabendo da dificuldade que eles estavam passando, agiu de maneira irresponsável, mas não sabemos qual a situação que eles se encontravam e o que o levou a praticar esse crime, pelo qual, muito provavelmente, será condenado.

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Enfim, situações do nosso Brasil. Situações que nos fazem refletir sobre a sociedade, sobre a política e sobre a nossa própria vida.


¹ Requisitos para o auxílio reclusão: (1) Possuir qualidade de segurado na data da prisão; (2) Possuir 18 (dezoito) contribuições mensais, consecutivas ou não; (3) Estar recluso em regime fechado ou semiaberto (desde que a execução da pena seja em colônia agrícola, industrial ou similar); (4) Possuir o último salário-de-contribuição abaixo do valor previsto na legislação, conforme a época da prisão (consulte o valor limite para direito ao do auxílio-reclusão).


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6 comentários

  1. Meu marido esta preso tem 20anos e nunca trabalhou de carteira assinada e temos uma filha de um ano so tem direito ao beneficio quem tem ou ja teve carteira assinada gostaria de saber

    1. Ei, Rosa, boa noite.
      Então, para receber auxílio reclusão é necessário que a pessoa estivesse contribuindo para o INSS quando foi preso.
      Se não tinha carteira assinada e não contribuía, não tem direito ao recebimento desse auxílio.
      Um grande abraço

  2. se o preso tem carteira assinada ganha 1,580,00 a esposa não tem direito no auxilio reclusão,só que preso num está ganhando nada . como fica a familia ?????de que vale contribuir.?se na hora que precisa num tem direito;;;;;;

  3. São tantos detalhes…
    Acho que se tivéssemos políticas públicas acerca da conscientização do controle de natalidade, essa e outras histórias poderiam ser diferentes.
    Preocupo-me com o futuro que estas crianças terão, é inegável que o número excessivo de filhos em famílias de baixa renda e sem estrutura, contribui consideravelmente para para o aumento da pobreza e da criminalidade. Certamente não só nas famílias de baixa renda, mas em todas aquelas em que não há uma boa estrutura para a educação dos filhos. Pergunto-me sempre qual a necessidade de ter tantos filhos. Talvez a resposta seja justamente a falta de conscientização de que a maternidade/paternidade é uma escolha e não uma obrigação. Conheço pessoas que tiveram filhos ainda muito cedo, foram obrigadas a casarem-se com os pais das crianças e hoje acabam sustentando um casamento falido, com um marido agressivo.
    Será que os pais tem o direito de ter filhos para lhes deixar faltar o mínimo necessário para a sua sobrevivência e educação? As pessoas precisam entender o tamanho dessa responsabilidade. Quais oportunidades os filhos da Renata terão? Certamente não muitas.
    Se forem negros será ainda mais difícil, o negro encontra resistência para trabalhar até mesmo no empregos mais desvalorizados. E ainda dizem que não existe preconceito, mas sim vitimismo.
    Nosso país tem tanto a evoluir…

    1. Só um adendo; acho que o número excessivo de filhos pode ser um problema em qualquer classe social, mesmo porque não se constrói um ser humano apenas com dinheiro. É necessário valores sociais e mais uma série de outras coisas. Sem falar que um filho a mais representa também um impacto no meio ambiente. Até 2050 a população mundial vai quase dobrar, não haverá alimento e água suficiente para tanta gente. E o menos surpreendente é que o crescimento vai ocorrer principalmente em regiões menos desenvolvidas, segundo a ONU.

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