Criminologia

O Justiceiro – como a legítima defesa forma heróis populares

Hoje vou começar contando uma história. Uma história que fala sobre “O Justiceiro”, um herói popular formado por meio do instituto da legítima defesa.

Era o início de mais uma noite normal. Volta pra casa, ônibus lotado e aquela vontade de chegar logo.

Tudo acontecia nos conformes, como sempre.

Entre um cochilo e outro, a cabeça batendo na janela, aquele misto de fome, cansaço e vontade de ir ao banheiro, de repente, eis que surge um homem armado que comandava a ação e dois outros indivíduos, todos muito nervosos, que revesavam na tarefa de recolher os pertences dos passageiros.

Os assaltantes tinham o domínio da situação, todas as vítimas entregavam seus pertences e, provavelmente, logo desceriam do coletivo, fugiriam e quem sabe seriam presos.

Só que o destino nem sempre segue planos exatos.

Em meio a ação criminosa, surge um herói, aqui chamado de “O Justiceiro”.

“O Justiceiro” se levanta com a arma em punho, grita que é Policial Militar e atira em todos os três bandidos, matando um dos que recolhiam os pertences das vitimas, ferindo levemente o que estava armado e gravemente o outro que revesou na subtração dos bens.

“Parabéns ao ‘Justiceiro’.”

“Antecipou muitas etapas e resolveu o problema da nossa impunidade.”

Bandido bom é bandido morto.

“Vai roubar lá no inferno”.

“Não tenho dúvidas que ele representa os anseios da sociedade e a defende de todos os males.”

“Ninguém aguenta mais essa onda de assalto a ônibus e tantos roubos de celulares (que no outro dia serão substituídos por outros ainda melhores).”

“‘O Justiceiro’ para presidente, já!”

Todos aplaudem de pé a ação e gritam seu nome (“Ahhhh.. É O Justiceiroooooo! Ahhhh.. É O Justiceiroooooo! Ahhhh.. É O Justiceiroooooo! …).

E, assim, mais um dia foi salvo graças ao “Justiceiro” e à “legítima defesa”!


Muito bonito, certo? A história teve um final feliz, pois os vilões foram mortos e o mocinho saiu ileso e será condecorado.

Mas nem tudo são flores nas histórias policias e nesse caso específico temos sérios problemas.

Um deles é que não havia arma de fogo, mas apenas um simulacro de plástico (o mesmo que nada).

Simulacro não é arma de fogo, assim como um urso de pelúcia não é um urso de verdade.

Outro problema e ainda mais grave, talvez seja o pior de todos: só existia um assaltante, o que estava “armado”.

Os outros dois foram rendidos por ele e obrigados a recolher os pertences das outras vítimas.

Ou seja, também eram vítimas.

Logo, o herói, agindo em “legítima defesa”, alvejou duas vítimas, matando uma delas e ferindo a outra gravemente, por uma interpretação errada da situação, e deu um tiro no braço daquele que realmente assaltava o ônibus, pois no seu imaginário todos eram bandidos e participavam da mesma empreitada criminosa.

É tipo o caso da furadeira que era metralhadora; do saco de pipoca que era droga; e tantos outros.

Podemos dizer, ainda, que nenhum requisito da legítima defesa foi preenchido no caso. Ali, na verdade, foi uma legítima execução. Não por se tratar de uma execução legal, mas por ser uma execução verdadeira.

O Policial, que sequer havia sido abordado, atirando dentro de um ônibus lotado, usou dos meios necessários para repelir a injusta agressão?

Não havia nenhum outro meio?

Ele repeliu uma injusta agressão ou causou uma injusta agressão?

A vítima alvejada pelo policial poderia, então, pegar uma arma e atirar no policial, pois estava agredido injustamente e podia repelir legitimamente essa agressão?

São tantos os absurdos nessa minha história que eu poderia ficar linhas e mais linhas falando sobre eles.

O pior mesmo é que esse “causo” poderia ter sido inventado por mim, mas não, ele é real.

Aconteceu aqui em terras capixabas.

E o mais interessante é que o policial, após ser afastado temporariamente, falou que fez o óbvio, pois o ônibus estava sendo assaltado por três bandidos “armados”.

O óbvio?! Sério??

Com isso quero chamar atenção para o perigo que temos gerado com a nossa sede por vingança, por “justiça” a qualquer preço, com a vontade de colocar mais armas nas ruas.

Estamos preocupados de mais com os galhos e nos esquecemos do tronco e da raiz.


Vejam as notícias, todas do mesmo jornal, sobre o caso e tirem suas próprias conclusões:

Passageiro é morto durante assalto a ônibus do Transcol

Policial que matou passageiro ao reagir a assalto em ônibus é afastado da PM

Subtenente diz que atirou para se defender

“Policial é treinado para não errar”, afirmam especialistas

Um grande abraço!


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Um grande abraço!

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3 respostas »

  1. Muito bom.
    Parabéns!!!
    Nossa sociedade está perdida, e o número de ” justiceiros”, aumenta dia a dia. Seja escondidas em ações de repressão aos nossos direitos, ou na coragem que o individo sente armado.

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  2. Muito bom.
    Parabéns!!!
    Nossa sociedade está perdida, e o número de ” justiceiros”, aumenta dia a dia. Seja escondidas em ações de repressão aos nossos direitos, ou na coragem que o individo sente armado.

    Curtido por 1 pessoa

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