Por qual razão não nos importamos com o outro?

Era pouco mais de meio dia, no caminho para o trabalho, Rubens percebe que o trânsito próximo ao vão central da ponte estava parado.

– Trânsito uma hora dessas? – murmurou.

Dez minutos se passaram e nada do trânsito fluir.

Rubens já estava impaciente, tinha uma reunião marcada e não podia se atrasar.

Levantou do carro, olhou para frente, mas não conseguia ver o que tinha acontecido; olhou pra trás, a fila de carros era enorme e já se perdia de vista.

Entrou no carro novamente e ligou o rádio para saber notícias sobre o trânsito, quando soube que era uma pessoa que ameaçava se matar, pulando da ponte.

Já tinha 1h de interdição do trânsito e a situação não demonstrava melhorar.

Nervoso, Rubens resolveu desligar o carro e caminhar até o local da interdição para saber quanto tempo ia demorar para liberar o trânsito, pois não podia esperar mais.

Quanto mais Rubens se aproximava, mais ele ouvia a reclamação dos outros motoristas. Ouvia um dizer que era pro cara pular logo, outra dizia que quem quer se matar não enrola, vai lá e pula, dentre várias outras afirmações inacreditáveis.

Chegando no local, Rubens (que já estava nervoso) repetia tudo aquilo que foi ouvindo no caminho.

Lá na frente, mas sem ver a pessoa que tentava retirar a própria vida, Rubens e mais um ou outro que estava por perto começaram a falar em voz alta:

– “Pula logo que eu estou atrasado! Não dá para parar a cidade só pq alguém quer se matar!”

Como se tivesse ouvido a reclamação, a pessoa que estava pronta para pular fechou os olhos, respirou fundo e deixou o corpo cair da ponte, vindo a morrer.

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Algumas pessoas gritaram, outras até choraram, mas pouquíssimos minutos depois tudo se acalmou, todos entraram no carro, o trânsito seguiu e cada um foi para o seu compromisso.

Rubens ficou um pouco impressionado, não imaginava que aquela situação aconteceu, mas logo criou uma explicação que lhe eximisse a responsabilidade: “Provavelmente ele nem ouviu o que eu disse, ia pular de qualquer jeito.”

Ao chegar no trabalho, a reunião já tinha acontecido, só que Rubens viu uma incomum movimentação na sua sala.

Quando abre a porta, todos estavam cabisbaixos, tinham acabado de receber a notícia de que Manoel, filho de Rubens, morreu.

Tinha acabado de pular da ponte.


Essa é uma situação hipotética que eu imaginei quando soube de mais um triste episódio na 3ª Ponte, uma das pontes de Vitória/ES, envolvendo a tentativa de suicídio de mais um desesperado.

Essa é uma ponte que é muito utilizada para o suicídio. Volta e meia alguém vai até o vão central e pula da parte mais alta da estrutura.

Sempre que isso acontece o trânsito fica um caos, pois os Bombeiros e a Polícia fecham os dois sentidos da via para tentar o resgate.

Essa semana teve mais um caso de tentativa de suicídio e o trânsito ficou parado por quase 5h.

O resultado foi um nó em todas as vias de acesso a ponte e estressando muita gente.

A situação já é triste por si só e para piorar as pessoas que estão presas no trânsito, irritadas por estarem atrasadas, passam a gritar impropérios como: “pula logo!”, “se quisesse pular já tinha pulado!”, “libera o trânsito que eu tenho que passar!”, …

Um show de menosprezo aos problemas alheios.

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Essa situação me fez imaginar a história acima, que demonstra como falta empatia e não nos damos conta de como nossas ações, mesmo que pequenas, geram resultados inimagináveis.

E quando falamos sobre Direito Penal as coisas não são diferentes. A nossa empatia se resume ao que acontece com nós ou com quem está ao nosso redor.

Tenhamos mais compaixão, mais amor para com o próximo.

Somos todos um só.


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